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quarta-feira, 26 de maio de 2010

DESFRUTE

Descascar a fruta sem pudor até deixá-la nua. Vislumbrar um corpo amarelo de manga madura, carnudo, fresco, molhado; liberar-lhe um perfume que desperta os sentidos e faz desejar. Hesitar por instantes em mordê-la, macular-lhe a forma roliça perfeita, adivinhar a delícia de seu suco, assisti-lo escorrer por entre os dedos; a urgência maior agora é estancar-lhe o desperdício. Irresistivelmente abocanhar um naco gordo de polpa, fazer com a língua e o pedaço uma orgia para dissolver-lhe a estrutura de manga, rasgar-lhe a carne, provocar-lhe uma explosão de sabor. Dilacerar-lhe até a alma de fruta. Formar um único líquido de saliva e caldo para, em seguida, sorver o resultado de um gole só, assim, de supetão, livre de culpa. Então, saciada, ter a certeza de que a natureza é sábia e de que Deus existe.

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