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quarta-feira, 26 de maio de 2010

ODE AO SUPER-HERÓI

Super-homem é todo bruto
que no auge da cólera
subverte o sentido
da lâmina que empunha
e não ceifa
Contraria a eficiência
da arma que aponta
e não atira
ou recolhe no ar a mão
quando quer esmagar
para, heroicamente,
imobilizá-la
Super-homem é todo aquele que
mata tantas vezes em pensamento
quanto, de verdade,
perdoa

SEM QUERER

Eu estou
por me dizer
se é de fato
o sem querer
um tanto de querer
escondido
ou se é sem querer
de verdade
apenas quando quer
distraído

A DOR

Toda dor
é legítima
Ainda então
se escolhe
a alma
como vítima
pois que toda dor
quando anímica
já nasce doendo
mais íntima

A TEORIA DA RELATIVIDADE

Tudo em que creio, é.
Entretanto basta que um outro creia
para tudo em que não creio
também seja

CAPRICHO DA NATUREZA

Um pássaro pequenino
elegante e beijador
não sabe que o seu beijo
ensina
quando pousa o bico
na flor
o quanto a natureza faz rima
com a beleza
a delicadeza
e a cor

O MEIO

Pelo sim, pelo não
escolho os dois
e decido depois
porque não sou besta

OSMOSE

Devo manter a vigilância.
Tanto me fascina a alma alheia, as nuances do Outro, que estou sob risco constante de fazer plágio. Ou, pior ainda, de virar fraude.

CALENDÁRIO

Desconfio que o futuro
o presente e o passado
sejam artimanhas
do calendário
Uma trama bem urdida
pelo tempo e pela vida
Deve estar fixado
numa espécie de Tratado
que a vida passe apenas
caso esteja o tempo
em constante movimento
Talvez seja o presente
tão somente
toda fração de momento
que já no instante seguinte
ganhe ares de passado
O futuro então seria
por conseguinte
o presente antecipado

TROVINHA

Quis saber o amigo cético
do amigo sonhador
a graça que este via
em amar alguém de longe
sem saber se provaria
o gosto qu'esse amor tem
O sonhador lhe responde
sonhando ainda além
que a ele bastaria
das noites em que seu amor sonharia
ser parte do sonho também

JOGO DE AZAR

E eu, tão afeita a devaneios
ensaio flertes perigosos
com a solidão
Receio ter papel secundário
neste jogo de sedução
Vai que a solidão, apaixonada
instale-se em definitivo
submetendo à lei
do usucapião
e mesmo face a um pedido meu
para bater em retirada
responde-me, resoluta,
que não

VAIDADE

Tenho para mim que pintar os cabelos brancos, mascarar rugas a bisturi ou coisa que o valha é, no fundo, no fundo, dispensar testemunhas.

GUERRA FRIA

Estou em constante desordem
Meu espírito cobra desatinos
que meu corpo comedido
não alcança conceder
No combate clandestino
entre a sanha do querer
e o que lhe é permitido
nenhum fragmento de mim
aceita morrer

VIDE BULA

Corações enamorados
cuidado
Beijo roubado
tem efeito colateral
tal folhetim
É o início do início
ou o início
do fim

HOMENAGEM AOS POETAS

O que seria do poeta
se a matemática fria
sozinha
explicasse o universo?
Menos mal que a poesia
sucursal da fantasia
enfeita a tradução do mundo
na qualidade de verso

QUESTÃO DE ROMANTISMO

Em meu inventário de dúvidas
uma pergunta insiste
Se apenas aquilo que sei
é o tanto de mundo que existe
como explicar um amor
que resiste
embora o ser a quem ame
nada mais saiba de mim?

LIÇÃO DE VIDA

Sou uma mulher bastante tola
Um bicho preguiça mais sabe do vida
do que eu
Ele vive. Existe e pronto
Exerce seu papel neste mundo
com a mansidão dos que se bastam
Eu, em contrapartida,
às vezes não consigo dormir
sem a ajuda de um tranquilizante

A VIDA AO AVESSO

Cárcere privado
é onde o corpo
disfarçado em calabouço
mantém a alma prisioneira
na vã tentativa
de estar a salvo de si
A alma
entidade claustrofóbica
entregue a propria sorte
agoniza em um grilhao
até a morte

DAR TEMPO AO TEMPO

Não sou de perder tempo
fugindo de sentimento
Ao contrário
cuido de dar ao tempo
neste caso
a devida autoridade
pois que ele próprio
valendo-se de si mesmo
e boa dose de paciência
consegue transformar
a rigidez das pedras
com a ajuda do vento
Portanto
remendar inteiro
um coração partido
é tarefa banal do tempo
brincando de costureiro

À BEIRA-MAR

Graças à sensibilidade musical de certo molusco
que presenteia ao mar sua morada
desde tempos imemoriais
o oceano pode orquestrar sinfonia
dentro de conchas acústicas
e eternizar-se no barulho das vagas

O NINHO E O DESERTO

Coração que nasce ninho
jamais é coração sozinho
Abriga gente, ovo, sentimento, passarinho
qualquer coisa, enfim,
com urgência de carinho
Coração que nasce ninho
oferece aconchego
mesmo a um coração deserto
que, ignorante de afeto,
só pode devolver-lhe em troca
um pedaco de solo incerto

OS DIAS E AS NOITES

A noite, sedutora, convidou o dia a anoitecer
O dia, ruborizado, não passou de entardecer

DO QUE NÃO ESTÁ ESCRITO

Com todo o mistério que envolve a Criação, gosto de pensar que há mensagens subliminares na Natureza quando exibe extravagâncias como estrelas cadentes, ou plantas no solo seco do deserto ou espinhos em flores, por exemplo, do contrário tudo não passaria de um mero espetáculo de humor negro.

SOBRE PRÍNCIPES ENCANTADOS

Sou tão disciplinada de inventar amores...
Quisera ter algum critério, inventar somente os amores possíveis.
Mas não leio bula, não sigo bússula, ignoro receitas.
Minha ignorância, neste caso, me salva da promiscuidade

BICHO DO MATO

Em manhãs chuvosas
costumo depertar telúrica
Terra é o elemento predominante em meu espírito
Tenho o passado que mora num latifúndio
Água penetrando a terra
é senha para os meus sentidos
Preciso invadir canteiros
Fincar os pés bem no fundo
do todo que lhe resta de chão
Sofrer transfusão de minerais pelo corpo inteiro
para viver minha experiência de árvore
Depois de manhãs chuvosas
preciso desculpar-me às plantas
pois para prestar conta aos antepassados
e render homenagem à infância
roubo-lhes muito da seiva
altero o ph de seu habitat
transformo-lhes a química
Cravo raízes por todo o jardim
Então, fico em dívida de alimentar a terra
adubar-lhe de volta o solo
e curar-lhe a anemia
porque quero devolver-lhe a sina
de engravidar as sementes
mesmo depois de mim

AUSÊNCIA

Quando quero falar comigo
às vezes não me encontro em casa
Tiro férias de mim mesma
e saio tão apressada,
mal tenho tempo de ser avisada
Evito as viagens longas
que me ponham em perigo
Se gosto de ser andança
gosto mais de ser abrigo

POROROCA

Minh'alma quando está no cio
e dá de fazer amor com as palavras
é um rio
que precisa desaguar
Minh'alma, por um fio
se entrega à poesia
mais que o rio
que em plena lua cheia
abre as águas para o mar

 - Cabe à consciência humana fazer com que a condição humana se traduza em privilégio.

 - Da observação das borboletas entendi que uma existência breve comporta grandes vôos.

 - Colocar um ponto final em uma história de amor cheia de reticências é, no mínimo, uma violência gramatical.

  - A vida é mesmo sádica. Faz-se ainda mais bonita para aqueles que estão na iminência de perdê-la. Exceção para os suicidas, com quem ela não tem a menor intimidade.

 - O homem é tão egocêntrico que jamais se deu ao trabalho de inventar um antídoto contra os espelhos.

 - Diante de certas situações que se nos apresentam, a adaptação pode vir a ser a melhor forma de rebeldia.

 - Saudade insistente do que ontem nós fomos é claro sinal de que hoje não somos.

 - Artista é todo aquele que não cabe em si.

 - A morte é o desaparecimento levado às últimas consequências.

 - Envelhecer é como lentamente tornar-se invisível.











ORAÇÃO

Que não me despertem
Que não me delatem
Que não me apertem
Que certas gargantas secas
não ecoem os seus gritos
Que alguns sábios
não me apontem
Que mãos impunes
não me alcancem
Que fulanos e fulanas
sejam cem
Que minha imagem
a todos espelhe
e aos aflitos:
que suas lágrimas cessem
Que alguém não seja
dos que não ouvem
Que os anjos digam amém

DESFRUTE

Descascar a fruta sem pudor até deixá-la nua. Vislumbrar um corpo amarelo de manga madura, carnudo, fresco, molhado; liberar-lhe um perfume que desperta os sentidos e faz desejar. Hesitar por instantes em mordê-la, macular-lhe a forma roliça perfeita, adivinhar a delícia de seu suco, assisti-lo escorrer por entre os dedos; a urgência maior agora é estancar-lhe o desperdício. Irresistivelmente abocanhar um naco gordo de polpa, fazer com a língua e o pedaço uma orgia para dissolver-lhe a estrutura de manga, rasgar-lhe a carne, provocar-lhe uma explosão de sabor. Dilacerar-lhe até a alma de fruta. Formar um único líquido de saliva e caldo para, em seguida, sorver o resultado de um gole só, assim, de supetão, livre de culpa. Então, saciada, ter a certeza de que a natureza é sábia e de que Deus existe.